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António Zambujo
António Zambujo

Primeira data: 27 de Novembro de 2011. O Fado é distinguido como “património imaterial da Humanidade”. Três anos depois, a 27 de Novembro de 2014, o cante alentejano. Já havia um homem a traçar um peregrino equilíbrio entre estes dois mundos: António Zambujo. Importa afixar uma ressalva: nunca Zambujo se sentou comodamente no meio de uma qualquer ponte que ligue as duas escolas musicais, nunca procurou construir uma passagem artificial entre estes dois universos que o estimulam e lhe servem de bases. Adopta como método de trabalho a aventura da inquietação, que lhe permite atravessar de margem a margem, dando corpo à ideia de que não se pode fugir a um destino, mas pode sempre tentar-se a sua sistemática ultrapassagem e o seu crescimento para novas realidades.

António Zambujo nasceu em Beja, em 1975, cresceu a ouvir a gravitas do cante alentejano. Sabe-se que, ainda pequeno, se deslumbrou com as grandes vozes fadistas. Dispôs de uma feliz infância musical e de uma adolescência activa neste campo, até que aportou a Lisboa. Em dois passos, fez-se amadurecer: no primeiro, pela mão do guitarrista e compositor Mário Pacheco, conheceu o universo fadista, juntando-se ao elenco do Clube do Fado. No segundo, desbastou as inseguranças e os truques do palco, no musical Amália, de Filipe La Féria.

Em 2002, lança “O Mesmo Fado”, um que lhe deu o primeiro prémio: a Rádio Nova FM escolhe-o como Melhor Nova Foz do Fado, uma distinção que antes fora entregue a nomes como Mariza ou Camané. Em 2004, vira-se a Sul, debruça-se sobre o Cancioneiro de Beja e dá novas cores à sementeira alentejana, em comunhão com o Fado. O segundo álbum chama-se “Por Meu Cante”, os dois títulos sublinham o cruzamento que atrás se referiu – e que nunca foi uma encruzilhada. Com o segundo álbum conquista um novo prémio, de Melhor Intérprete Masculino de Fado – pela Fundação Amália Rodrigues. Torna-se “embaixador” da Música Portuguesa, representando-a em festivais internacionais.

O seu terceiro álbum, “Outro Sentido”, de 2007, foi editado na Europa e nos Estados Unidos, reclamando um lugar autónomo no planeta da world music. Conquista novas praças-fortes de divulgação, nomeadamente a francesa (o disco esteve no topo de vendas da cadeia FNAC). No Brasil recebeu aplausos entusiásticos, com destaque para a declaração de Caetano Veloso: “Quero ouvir mais, mais vezes, mais fundo (…) É de arrepiar e fazer chorar”.

A tendência para a travessia do Atlântico, mantida até hoje, aprofunda-se em “Guia” (2010), com a inclusão de temas assinados por novos valores brasileiros e de igual forma com a solidificação de um núcleo admirável de contribuintes nacionais. O seu reconhecimento e popularidade conduzem-no a espectáculos em países tão improváveis como Dinamarca (o seu concerto na Womex2010 foi exibido no canal de televisão Mezzo), Noruega, Azerbaijão, Israel ou Bulgária. O seu trabalho vai sendo aplaudido pela crítica nacional e internacional (revista Mondomix em França, revista Songlines em Inglaterra).

Quando chega “Quinto”, canções como “Lambreta” ou “Flagrante” partem resolutamente para o ‘domínio público’, ao mesmo tempo que o seu intérprete é desafiado para duetos, colaborações, composições e autorias cedidas a terceiros. É neste momento que grava o seu primeiro registo ao vivo, no Coliseu. Alinha, ao lado de Ana Moura, numa série de espectáculos que muitos não conseguirão – nem quererão – esquecer.

Mais recentemente, entra noutra jornada, vai parar à “Rua da Emenda”. Um disco que ora é viela estreita para amores arraçados de fadista, ora se transforma em avenida larga para escalas que trazem todo o mundo (Brasil, França, Uruguai, África) para a dimensão maior de um artista português. Dispensa os condicionamentos de trânsito, todos têm lugar, sem problemas de estacionamento: aos colaboradores habituais somam-se espaços novos e amplos para quem chega, como Samuel Úria e José Fialho Gouveia. As geografias ajustam-se à dimensão desta rua onde cabem os talentos imortais de Noel Rosa ou de Serge Gainsbourg, lado a lado com os nossos contemporâneos Jorge Drexler, Rodrigo Maranhão ou Pedro Luís. Prova de que esta ‘Rua da Emenda’ é, afinal, uma rua do mundo.

Em digressão de suporte a “Rua da Emenda”, passou por frança onde deu 13 concertos, voltando depois a Portugal para 3 noites nos Coliseus, dando depois continuidade a uma digressão nacional e internacional. Noites em que nos sentimos convocados a agradecer-lhe por todos estes anos, todas estas canções, todos estes momentos em que a sua voz foi o espelho, necessariamente melhorado, das nossas próprias vozes. Lá estaremos, ao lado de quem nos chama, sem nunca nos gritar.

António Zambujo iniciou o ano de 2015 nos palcos, com 13 concertos em 12 dias em França e a chegada ao nº 1 do top de World Music do iTunes Francês, regressou depois a Portugal para três concertos nos Coliseus de Lisboa e Porto. Em Maio, nos Globos de Ouro, foi galardoado com dois prémios, para Melhor Intérprete Individual e Melhor Música, e logo no mês seguinte o Presidente da República condecorou António Zambujo com a Comenda de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Continuou numa intensa digressão mundial, que passou pelo Japão, Brasil, entre muitos países europeus, e ainda se vai apresentar no Canadá e EUA, totalizando em 2016 mais de 100 datas.

Fonte: Sons em Trânsito